quinta-feira, 23 de setembro de 2010

O QUE TERIA FEITO JESUS NOS 3 DIAS ENTRE SUA MORTE E SUA RESSURREIÇÃO?

Esta foi a primeira dúvida que surgiu na nossa caixinha de dúvidas. Não irei transcrever minha resposta, mas sim encorpá-la. Provavelmente eu faça isso com as outras questões que já surgiram e que ainda surgirão.

Primeiramente vale esclarecer onde Cristo esteve...
"Mas Deus o ressuscitou, rompendo os grilhões da morte, porque não era possível que ela o retivesse em seu poder"
(At 2,24).
Da morte, aqui, é traduzida como Hades[1]. Isto se dá pelo paralelo feito vos versículos 27 e 31. De fato o Hades [no grego] é a região dos mortos. Seu correspondente [no hebraico] é o Xeol [sheol].
Cristo desce até a morada dos mortos. Logo Cristo não desce até o inferno[2], mas sim aos Infernos. Paulo nos diz na carta aos efésios[3]Que significa “subiu”, senão que ele [Cristo] também desceu às profundezas da Terra? O que desceu é também o que subiu acima de todos os céus,(...)” (Ef 4, 9-10).
Esta morada dos mortos é o Seio de Abraão.
Novamente aviso que não estamos falando de lugares físicos, mas é impossível não fazermos paralelos com o mundo que vivemos.
Primeiramente, o termo “Seio de Abraão” designa proximidade com os patriarcas como vemos nestes 2 exemplos:
Josué, filho de Nun, servo do Senhor, morreu com a idade de cento e dez anos.(...)Toda aquela geração se foi também unir a seus pais, e sucedeu-lhe outra que não conhecia o Senhor, nem o que ele tinha feito em favor de Israel.”
(Juízes 2, 8.10)
Aquela geração se foi unir a seus pais [os patriarcas] juntamente com Josué que já havia morrido.
“Quando eu [Jacó] me tiver deitado com meus pais[morrido], levar-me-ás para fora do Egito e me enterrarás junto deles em seu túmulo.” José respondeu: “Farei como dizes.”(...)”
(Genesis 15, 15)
Novamente vemos este paralelo pois Jacó equipara morrer a deitar com os pais [patriarcas].
Esta imagem do estar com os Pais, ou no Seio de Abraão indica a proximidade de Abraão com o Messias mostrado por Mateus:
“Por isso, eu vos declaro que multidões virão do Oriente e do Ocidente e se assentarão no Reino dos céus com Abraão, Isaac e Jacó(...)”.
(Mateus 8, 11ss)
Notem que este lugar não é o paraíso para o qual aponta Jesus no diálogo com o Ladrão na cruz (Lc 23, 43). Tanto o homem rico quanto o pobre Lázaro estariam em um mesmo “lugar”, porém separados por um grande abismo (Lc 16, 26), que simboliza, para eleitos e condenados, a impossibilidade de modificar o próprio destino.

Quem Cristo encontra lá?
De fato, como mostrei, na mansão dos mortos estão todos os que morreram, sejam justos, sejam maus (Salmo 6, 6 c/c 89[88], 49). Todos, que morreram na condição do pecado original [Resquício de adão], estão lá, privados da visão de Deus.
Não há possibilidade de comunhão com Deus para a geração de Adão. Por isso, mesmo nenhum dos santos que haviam morrido (Ex. Moisés, Abraão, Noé, David etc.) podiam ter entrado no céu, porque o pecado de Adão ainda não fora remido. Os justos esperavam pela redenção num lugar onde não sofriam nem gozavam ainda da visão de Deus.

O que Cristo faz lá?
Lá ele liberta estes justos da privação da presença de Deus e prega aos incrédulos.
“O Cristo morto, em sua alma unida à sua pessoa divina, desceu à Morada dos Mortos. Abriu as portas do Céu aos justos que o haviam precedido”[4].
De fato “foi o Evangelho pregado também aos mortos” (I Pd 4, 6), e, entre os mortos, também aos injustos (I Pd 3, 18-19).
Logo, Cristo vai à mansão dos mortos para que, literalmente, “os mortos ouçam a voz do Filho de Deus; e que ouvindo vivam” (Jo 5, 25). Apesar de ser esta passagem colocada em um contexto não de mortos físicos, mas de mortos espirituais, podemos traçar um paralelo com Jo 11, 25-26.43-44:
Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que esteja morto, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim, jamais morrerá. Crês nisto? (...)exclamou em alta voz: Lázaro, vem para fora! E o morto saiu(...).

O catecismo no seu número 635 nos remeta a Liturgia das horas do Grande Sábado, o Sábado Santo, véspera da Páscoa. Ele diz:
Um grande silêncio reina hoje na terra, um grande silêncio e uma grande solidão. Um grande silêncio porque o Rei dorme. A terra tremeu e acalmou-se porque Deus adormeceu na carne e foi acordar os que dormiam desde séculos... Ele vai procurar Adão, nosso primeiro Pai, a ovelha perdida. Quer ir visitar todos os que se assentaram nas trevas e à sombra da morte. Vai libertar de suas dores aqueles dos quais é filho e para os quais é Deus: Adão acorrentado e Eva com ele cativa. "Eu sou teu Deus, e por causa de ti me tornei teu filho. Levanta-te, tu que dormes, pois não te criei para que fiques prisioneiro do Inferno: Levanta-te dentre os mortos, eu sou a Vida dos mortos.[5]"

Quando isto ocorre (em qual dos 3 dias)?
Temos que perceber que fora da nossa vida corporal não há tempo cronológico.
Logo Cristo morre estendendo sua obra redentora aos outrora falecidos.
Mateus relata no Evangelho que, logo após a morte de Jesus “Os sepulcros se abriram e os corpos de muitos justos ressuscitaram” (cf. Mt 27, 50.52).
Cristo, então, resgata os mortos e, abrindo as portas do céu, nos entroniza no Paraíso.
“Está preparado o trono dos querubins, prontos e a postos os mensageiros, construído o leito nupcial, preparado o banquete, as mansões e os tabernáculos eternos adornados, abertos os tesouros de todos os bens e o reino dos céus preparado para ti desde toda a eternidade”[6].


[1] Tradução da Bíblia de Jerusalém;
[2] Fato que nem poderia ocorrer, vide a palestra “céu, inferno e purgatório”;
[3] Tradução da Bíblia de Jerusalém;
[4] Catecismo da Igreja Católica 637;
[5] Uma antiga homilia, de autor grego desconhecido;
[6] Ibid.;

Dúvidas do curso de catequese

Como sou muito desligado, não avisei que a minha comunidade, a qual também nem disse que faço parte ou mesmo qual é, está ministrando um curso de catequese na paróquia (Divino Salvador, Piedade/RJ) aos sábados de 14h30min as 17h00min.
Bem, no curso nós temos uma caixinha de dúvidas, as quais respondemos sempre no seguinte sábado de curso.
Começarei a postar as respostas das dúvidas do nosso curso de catequese aqui no blog, de forma a ficar mais explicado.
O material do curso está no blog da minha comunidade no endereço
Informações sobre o curso é lá também.
Abraço a todos e espero muitas dúvidas...

terça-feira, 21 de setembro de 2010

A Grande diferença entre crer e ser fiel.

“Portanto, quem der testemunho de mim diante dos homens, também eu darei testemunho dele diante de meu Pai que está nos céus. Aquele, porém, que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante de meu Pai que está nos céus.”
(Mateus 10, 32-33)

   A Palavra de Deus nunca soa igual aqueles que a lêem com o coração aberto e inspirados pelo Espírito Santo. Não sei quantas vezes já li e reli Mateus 10, principalmente nos versículos 32 e 33 e seus equivalentes (Marcos 3, 28-30 e Lucas 12, 8-12). Porém hoje o Espírito Santo me fez esquecer o foco sobre os pecados contra o Espírito para reparar sobre um detalhe que sempre passou-me desapercebido: que Jesus nos fala a grande diferença entre crer e ser fiel.

Muitas vezes usamos tanto uma palavra que fazemos com que ela perca seu real sentido. Pode parecer estranho, mas muita gente perdeu o sentido de o que significa ser crente. Há muitos que dizem ser crentes mas não são. E não falo só dos crente “de boca” (Mateus 7, 21), mas também de pessoas que são, ou buscam ardentemente, ser santas e irrepreensíveis diante dos olhos de Deus (Efésios 1, 4).

Como assim?

Vamos começar fazendo uma análise de Mateus 10, 32.

“Portanto, quem der testemunho de mim diante dos homens, também eu darei testemunho dele diante de meu Pai que está nos céus”.

A palavra de ordem deste versículo é DAR TESTEMUNHO. Trata-se de uma promessa que Jesus nos faz: aquele que o testemunhar será testemunhado.

Entre vários significados da palavra testemunhar, estão: “atestar; confirmar; declarar ter visto, ouvido ou conhecido;”.

Logo testemunhar é sinônimo de CRER. Creia no Senhor, em meio aos homens, e o Filho do Homem o terá como verdadeiro diante dos anjos de Deus.

Poderia dar inúmeros exemplos de pessoas que creram em Deus e em Jesus, porém ficarei com uma: o jovem rico.

Pode parecer estranho, mas o jovem rico, ao contrário do que vários pensam, era um crente que poderia ser visto como exemplo para muitos. Vejamos dois aspectos que o capacitariam para ser um exemplo de conduta a ser seguido:

1º - ele reconhecia a pessoa de Jesus.

Tendo ele saído para se pôr a caminho, veio alguém correndo e, dobrando os joelhos diante dele, suplicou-lhe: "Bom Mestre, que farei para alcançara vida eterna?"(Marcos 10, 17).

O jovem rico só dobra os joelhos porque reconhece em Jesus a autoridade que vem de Deus. E ô fez de dia, para todos verem, sem se preocupar com o que muitos falariam. Uma coragem que Nicodemos não teve, pois foi ter com Jesus de noite, as escondidas (João 3, 1-2).

2º - ele reconhecia Deus e os mandamentos.

Conheces os mandamentos: não mates; não cometas adultério; não furtes; não digas falso testemunho; não cometas fraudes; honra pai e mãe." .Ele respondeu-lhe: "Mestre, tudo isto tenho observado desde a minha mocidade." (Marcos 10, 19-20)

Uma grande prova de amor a Deus é guardar seus mandamentos, de tal forma a fazer-se digno de misericórdia até a milésima geração (Êxodo 20, 6). E o jovem rico seguia os mandamentos desde sua mocidade.

Logo, o jovem rico era sim um crente. E um bom crente, reconhecedor de Cristo e observador da lei. Ele não seguiria os mandamentos se não acreditasse em Deus. Logo estava salvo, pois a palavra da verdade diz que Quem crer e for batizado será salvo (Marcos 16, 16). Também Deus nos fala que aquele que crer não será confundido (Isaías 28, 16).

Então não lhe faltava nada?

Jesus fixou nele o olhar, amou-o e disse-lhe: "Uma só coisa te falta; vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me. Ele entristeceu-se com estas palavras e foi-se todo abatido, porque possuía muitos bens. (Marcos 10, 21-22)

Amados, crer só não basta. Crer é o primeiro passo da longa caminhada que temos que fazer. Quantos crentes existem que pensam que estão salvos só porque crêem em Deus. Só porque crêem em Jesus. Será que você não está nesta acomodação? Será que você também não se tornou um crente frio? Alguém que leva este titulo e se orgulha dele, como se isto fosse o necessário para ser salvo?

O jovem rico estava disposto a crer em Jesus como seu Salvador, mas não estava disposto ser fiel a Jesus como seu Senhor, pois tinha como seu senhor os seus muitos bens (Marcos 10, 22), os quais não conseguia largar (Marcos 10, 24). Mas não há como servir esses dois senhores (Mateus 6, 24).

A figura de Jesus Salvador e de Jesus Senhor é a mesma porque ele é Salvador (Lucas 2, 11a) e Senhor (Lucas 2, 11b), e não pode ser separado, pois esta é a sua essência.

Quer dizer que o crente não se salva?

Só sendo crente, não! E isso é muito sério. Estamos criando em nós, em nossas comunidades, famílias, igrejas, acomodados fadados a condenação por não lutarem (Mateus 11, 12). É preciso atentar a uma verdade muito dura, mas real: SER CRENTE NÃO É GARANTIA DE SALVAÇÃO!

Mentira?

Vejamos o que a Palavra de Deus nos diz.

“porque a vós vos é dado não somente crer em Cristo, mas ainda por ele sofrer”. (Filipenses 1, 29)

Paulo escreve a comunidade que fundou em Filipos (Atos 16, 11-40) enquanto está preso, e, já tendo sofrido muito pelo anuncio do evangelho, lhes adverte, aproveitando da preocupação que os Filipenses tinham com ele (2 Coríntios 1, 8-10) se dando de exemplo, que não basta crer. Isso é cômodo. É preciso sofrer, e sofrer até o fim.

O Senhor revela ao profeta Daniel até onde deve ser essa medida de sofrimento dizendo “Quanto a ti, vai até o fim. Tu repousarás e te levantarás para (receber) tua parte de herança, no fim dos tempos” (Daniel 12, 13) Aqui nós temos dias de muita tribulação (Dn 12, 1), onde nem todos se salvarão (Dn 12, 2). Mas felizes os que conseguirem ser fiéis até o fim (Dn 12, 11-12). Esses se farão dignos da vida eterna no fim dos tempos.

Jesus nos diz que o Reino dos céus é dos violentos (Mateus 11, 12) não porque os que pegam em armas e praticam a violência serão salvos (Mateus 26, 52), mas porque estamos em uma verdadeira guerra contra o demônio (Efésios 6, 12), onde a tentação vem de todos os lados, e poucos acertam a salvação (São Mateus 7, 14), e se faz necessário lutar não só pela nossa redenção, mas pela redenção dos outros (1 Timóteo 1, 18-20; 6, 11-14).  Abandone, o mais rápido possível, o pensamento de que ser crente lhe vale de algo. Deus não precisa disso pra ser Deus. Deus não quer crentes, esse título, para Ele, não é nada. João Batista dizia Não digais dentro de vós: Nós temos a Abraão por pai! Pois eu vos digo: Deus é poderoso para suscitar destas pedras filhos a Abraão. (Mateus 3, 9).

Tiago dá uma dura lição quando diz “Crês que há um só Deus. Fazes bem. Também os demônios crêem e tremem. Queres ver, ó homem vão, como a fé sem obras é estéril?” (Tiago 2, 19-20).

Percebe que os demônios também são crentes? Que eles também crêem que há um só Deus? A pergunta que se deve fazer é: será que sou só “crente”? Será que minha fé é estéril? Será que ela é apta a dar frutos (Números 13, 20)?

Um dos motivos de muitos crentes não darem frutos é por serem crentes ao seu modo. É interessante como o crente tem o habito de ler a bíblia retirando aquilo que lhe convém. Isso porque ele crê, mas até onde ele quer, criando as suas verdades. Ele lê a bíblia assim:

Respondeu-lhe Jesus. "Em verdade vos digo: ninguém há que tenha deixado casa ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou filhos, ou terras por causa de mim e por causa do Evangelho que não receba, já neste século, cem vezes mais casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e terras, com perseguições e no século vindouro a vida eterna. (Marcos 10, 29-30)

Seria engraçado se não fosse trágico. O crente esquece que terá perseguições, esquece que Quem não toma a sua cruz e não me segue, não é digno de mim (Mateus 10, 38).

Fico de cabelos em pé quando ouço alguém dizer que o nascido de Deus vence (1 João 5, 4), tornando-se filho e herdeiro do Pai, através do Senhor Jesus (Romanos 8, 17), herdeiros de uma vida em abundância (João 10, 10) e que por isso Deus tem que me agraciar com saúde, prosperidade financeira e tranqüilidade. São pessoas que pensam que conhecem Deus, mas, na verdade, criaram seus próprios deuses. E se enganam e enganam a muitos, mas o Senhor diz Melhor lhe seria que se lhe atasse em volta do pescoço uma pedra de moinho e que fosse lançado ao mar, do que levar para o mal a um só destes pequeninos. ( Lucas 17, 2).

Se ser crente não basta, o que falta?

Ser fiel.

Aquele, porém, que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante de meu Pai que está nos céus. ( Mateus 10, 33)

Negar Cristo não quer dizer não conhecê-lo, mas não ser fiel a Ele diante dos homens (2 Timóteo 2, 13)

O povo fiel será elevado acima de todas as nações (Deuteronômio 28,1), e se tornará cooperador da obra de Deus (1 Coríntios 3, 9). Porém essa fidelidade passa pelas ações, orações e sofrimentos. Deve se ter consciência que a nossa redenção vem, antes de tudo, pela Cruz de Cristo (Lucas 9,23). E se somos co-herdeiros de Cristo (Romanos 8, 14-17), ô somos no sofrimento (1 Timóteo 4, 10).

É certo que aquele que é fiel ao Senhor também tem que estar disposto a servir o próximo como se servisse ao próprio Cristo, porque, em verdade, é isso que acontece (Mateus 25, 34-40).

O sofrimento e o serviço são marcas do Cristo (João 15, 20) que nós somos chamados a ser. Não é blasfêmia querer se comparar a Cristo, mas sim uma meta a ser atingida (1 Coríntios 11, 1).

Você é crente ou é Fiel?

Se você for fértil no Espírito, com certeza será mais que um crente, mas um fiel a Deus (Gálatas 5, 22), e assim receberá o justo premio aqui que é cem vezes mais casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e terras, com perseguições, e o premio maior que é a vida eterna, um tesouro no céu (Marcos 10, 21).

Se até hoje você não foi Fiel, e se assusta com toda esta responsabilidade, ore e peça a Deus, pela unção do Espírito Santo, um coração como o de Cristo. Não se preocupe por ainda não conseguir, mas preocupe-se se ainda não quiser tentar.

Ainda há tempo, pois sua infidelidade não destrói a fidelidade de Deus (Romanos 3, 3), Deus ainda confia em você irmão.

Tenho certeza que, todos os nossos pecados serão como o adubo, que é nada mais que esterco, aquilo que é degradante, sujo, jogado fora. Porém, é desse adubo que a planta retira muito do que a fertiliza, que a faz crescer. Deus é tão bom que faz isso conosco. Transforma o nosso adubo em árvores férteis que dão muitos frutos “cem por um, sessenta por um, trinta por um” (Mateus 13, 8), transforma o nosso pecado em graça, pois “onde abundou o pecado, superabundou a graça” (Romanos 5, 20).

Agora a escolha é sua.


Mostrai-me, Senhor, o caminho de vossas leis, para que eu nele permaneça com fidelidade.
(Salmos 118, 33)

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Liturgia Diária QUINTA, 9 de setembro

Evangelho (Lucas 6,27-38)

 “Naquele tempo, falou Jesus aos seus discípulos: 27“A vós que me escutais, eu digo: Amai os vossos inimigos e fazei o bem aos que vos odeiam, 28bendizei os que vos amaldiçoam, e rezai por aqueles que vos caluniam. 29Se alguém te der uma bofetada numa face, oferece também a outra. Se alguém te tomar o manto, deixa-o levar também a túnica.
30Dá a quem te pedir e, se alguém tirar o que é teu, não peças que o devolva. 31O que vós desejais que os outros vos façam, fazei-o também vós a eles. 32Se amais somente aqueles que vos amam, que recompensa tereis? Até os pecadores amam aqueles que os amam. 33E se fazeis o bem somente aos que vos fazem os bem, que recompensa tereis? Até os pecadores fazem assim. 34E se emprestais somente àqueles de quem esperais receber, que recompensa tereis? Até os pecadores emprestam aos pecadores, para receber de volta a mesma quantia. 35Ao contrário, amai os vossos inimigos, fazei o bem e emprestai sem esperar coisa alguma em troca. Então, a vossa recompensa será grande, e sereis filhos do Altíssimo, porque Deus é bondoso também para com os ingratos e os maus.
36Sede misericordiosos, como também o vosso Pai é misericordioso. 37Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai, e sereis perdoados. 38Dai e vos será dado. Uma boa medida, calcada, sacudida, transbordante será posta no vosso colo; porque com a mesma medida com que medirdes os outros, vós também sereis medidos”.

Primeira leitura (1º Coríntios 8,1b-7.11-13)

Irmãos, 1bo conhecimento incha, a caridade é que constrói. 2Se alguém acha que conhece bem alguma coisa, ainda não sabe como deveria saber. 3Mas se alguém ama a Deus, ele é conhecido por Deus! 4Quanto ao comer as carnes de animais sacrificados aos ídolos, nós sabemos que um ídolo não é nada no mundo, e que Deus é um só.
5É verdade que alguns são chamados deuses, no céu ou na terra, e muita gente pensa que existem muitos deuses e muitos senhores. 6Para nós, porém, existe um só Deus, o Pai, de quem vêm todos os seres e para quem nós existimos. E, ainda, para nós, existe um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual tudo existe, e nós também existimos por ele. 7Mas nem todos têm esse conhecimento. De fato, alguns habituados, até o presente, ao culto dos ídolos, comem da carne dos sacrifícios, como se ela fosse mesmo oferecida aos ídolos. E assim, a sua consciência, que é fraca, fica manchada.
11E então, por causa do teu conhecimento, perece o fraco, o irmão pelo qual Cristo morreu. 12Pecando, assim, contra os irmãos e ferindo a consciência deles, que é fraca, é contra Cristo que pecais. 13Por isso, se um alimento é ocasião de queda para meu irmão, nunca mais comerei carne, para não escandalizar meu irmão.

Salmo (Salmos 138)

— Conduzi-me no caminho para a vida, ó Senhor!
— Conduzi-me no caminho para a vida, ó Senhor!

— Senhor, vós me sondais e conheceis, sabeis quando me sento ou me levanto; de longe penetrais meus pensamentos, percebeis quando me deito e quando eu ando, os meus caminhos vos são todos conhecidos.
— Fostes vós que me formastes as entranhas, e no seio de minha mãe vós me tecestes. Eu vos louvo e vos dou graças, ó Senhor, porque de modo admirável me formastes! Que prodígio e maravilha as vossas obras!
— Senhor, sondai-me, conhecei meu coração, examinai-me e provai meus pensamentos! Vede bem se não estou no mau caminho, e conduzi-me no caminho para a vida!

Mais uma vez Jesus usa de uma pedagogia muito própria. Pode-se dizer que todo o seu discurso se resume nos versículos 36 ao 38. Contudo alguns poderiam dizer que não entenderam.  Ou mesmo se esquivar, igual fazemos as vezes, dizendo que não julgam ou não condenam ninguém.

“Se amais os que vos amam, que recompensa mereceis? (...). E se fazeis bem aos que vos fazem bem, que recompensa mereceis? Pois o mesmo fazem também os pecadores”.

Mais uma vez Cristo nos alerta para uma religião da boca para fora, onde dizemos e não fazemos. Quanto a este tipo de falsidade ele já alertara:

Este povo somente me honra com os lábios; seu coração, porém, está longe de mim”. (Mateus 15, 8)

Nisto a liturgia do dia nos dirá que devemos amar. Mas não só amar os amigos, mas também os inimigos (Lucas 6, 27-28); amar não somente por interesse, mas sem esperar nada em troca(Lucas 6, 33-34). Mas como isto é difícil. Impossível talvez.

Nesta hora devemos lembrar o que Jesus nos diz: “O que é impossível aos homens é possível a Deus”. (Lucas 18, 27)

E a nossa resposta a esta nossa fraqueza nós lemos no refrão do salmo 138(139):

— Conduzi-me no caminho para a vida, ó Senhor!

Deus nos sonda e sabe que somos fracos. Sabe das nossas dificuldades de segui-lo, de fazer o bem, de ler a bíblia, de orar, de dar a outra face quando recebemos uma bofetada,... DEUS SABE DASTAS COISAS. Ma também cabe a nós querer ser ajudados por este Deus.
Devemos pedir que Deus veja se não estamos no mau caminho, e se nele estivermos devemos pedir que Ele nos conduza para o caminho da vida (Salmo 138[139] 23-24). E que caminho da vida é este?

É JESUS: CAMINHO, VERDADE E VIDA (João 14, 6)

Por isso, para cada item que o Este trecho do Evangelho de Lucas nos pede, e que nós acharmos impossível seguir devemos pedir que Deus nos conduza no seu caminho e nos dê a força para fazer o bem.

Se não consigo amar meus inimigos e fazer o bem aos que me odeiam? (Lc 6, 27)
— Conduzi-me no caminho para a vida, ó Senhor!
Não consigo orar pelos que me amaldiçoam nem orar pelos que falam mal de mim?(Lc 6, 28)
— Conduzi-me no caminho para a vida, ó Senhor!
Não consigo dar a outra face a quem me bate nem me desprender dos meus bens a quem me rouba? (Lc 6, 29-30)
— Conduzi-me no caminho para a vida, ó Senhor!

A primeira leitura já começa a alertar que o conhecimento incha, isto é, só serve para se mostrar, para aparecer. É a caridade que constrói. Caridade aqui é amor ao próximo, independente de quem seja este próximo (alguém que gosta de nós ou que nos odeia).
Seguindo esta linha de raciocínio Paulo fala de algo que acontecia na comunidade de corinto (uma cidade que ficava na região da Grécia daquele tempo): o consumo das carnes que eram dadas aos ídolos.
Animais eram sacrificados aos “deuses” gregos e as sobras de suas carnes eram vendidas para consumo, e daí vinha a dúvida: poderiam essas carnes serem consumidas? Não seria isto sinal de idolatria? (1 Coríntios 8, 4)
Paulo responde que não, vez que esses “deuses” não existem. Só há um Deus e um só Senhor (1 Cor 8, 6).

Podemos comparar isto com o que ocorre nestas festinhas de “São Cosme e São Damião”. Entendam o que eu escrevi: serve como comparação, mas não é o mesmo caso, afinal doces não tem o papel na alimentação que a carne tem. Mas o exemplo serve quanto a como devemos agir.

Muitas das pessoas fazem isto [dar doces] por conta de promessas aos deuses afros. Se eu sei que estes deuses não existem não há problema em comer os doces. Mas, e aqui se aplica o que Paulo disse, se eu sei que alguém acha isto errado, para não criar um mal estar, é melhor eu não comer.
Por analogia podemos ler:

“Não compreendeis que tudo o que de fora entra no homem não o pode tornar impuro, porque não lhe entra no coração, mas vai ao ventre e dali segue sua lei natural? Assim ele declarava puros todos os alimentos”.
(Marcos 7, 18-19)

Mas o que isto tem haver com o evangelho? Tudo, oras.
Disse que o discurso de Jesus se resume aos versículos 36-38 do evangelho de Lucas. Aqui ele fala de misericórdia (compadecer da miséria – fraqueza – do outro), e de não julgar (se eu sei algo que o outro não sabe, ou tem um entendimento diferente, não me cabe achar superior).

Que possamos aplicar na nossa vida a medida que usamos para medir os outros, pois é com esta medida que seremos medidos (Lc 6, 38). LOGO NÓS NOS MEDIREMOS. Sendo assim:

— Conduzi-me no caminho para a vida, ó Senhor!

domingo, 29 de agosto de 2010

DOMINGO 29 de agosto

As leituras, particularmente a do Evangelho, elucidam o caminho da Santa Missa. A liturgia da Palavra vai de encontro ao Espírito Santo que nos “recorda” tudo o que Cristo nos fez. Não só nos Recorda, mas nos atualiza seus ensinamentos e o seu único sacrifício.
Partindo disto, o Evangelho segundo São Lucas 14, 1.7-14, nos diz:
Jesus entrou num sábado em casa de um fariseu notável, para uma refeição; eles o observavam. Observando também como os convivas escolhiam os primeiros lugares, propôs-lhes a seguinte parábola: Quando fores convidado às bodas, não te sentes no primeiro lugar, pois pode ser que seja convidada outra pessoa de mais consideração do que tu, e vindo o que te convidou, te diga: Cede o lugar a este. Terias então a confusão de dever ocupar o último lugar. Mas, quando fores convidado, vai tomar o último lugar, para que, quando vier o que te convidou, te diga: Amigo, passa mais para cima. Então serás honrado na presença de todos os convivas. Porque todo aquele que se exaltar será humilhado, e todo aquele que se humilhar será exaltado. Dizia igualmente ao que o tinha convidado: Quando deres alguma ceia, não convides os teus amigos, nem teus irmãos, nem os parentes, nem os vizinhos ricos. Porque, por sua vez, eles te convidarão e assim te retribuirão. Mas, quando deres uma ceia, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos. Serás feliz porque eles não têm com que te retribuir, mas ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos”.
Jesus nos fala de humildade e nos remete ao livro de Provérbios 25, 6-7, que diz:
Não te faças de pretensioso diante do rei, não te ponhas no lugar dos grandes. É melhor que te digam: Sobe aqui!, do que seres humilhado diante de um personagem”.
É nesta direção que se destina a oração que fazemos antes da liturgia da palavra, na qual dizemos “Deus do universo, fonte de todo o bem, derramai em nossos corações o vosso amor e estreitai os laços que nos unem convosco para alimentar em nós o que é bom e guardar com solicitude o que nos destes. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.
Seguindo a cronologia da Liturgia da Santa Missa teremos as leituras.
Eclesiástico 3, 19-21.30-31
Meu filho, faze o que fazes com doçura, e mais do que a estima dos homens, ganharás o afeto deles. Quanto mais fores elevado, mais te humilharás em tudo, e perante Deus acharás misericórdia; porque só a Deus pertence a onipotência, e é pelos humildes que ele é (verdadeiramente) honrado. Não há nenhuma cura para a assembléia dos soberbos, pois, sem que o saibam, o caule do pecado se enraíza neles. O coração do sábio se manifesta pela sua sabedoria; o bom ouvido ouve a sabedoria com ardente avidez”.

Salmo Responsorial 67 (68)
COM CARINHO PREPARASTES UMA MESA PARA O POBRE.

- Os justos se alegram na presença do Senhor rejubilam satisfeitos e exultam de alegria! Cantai a Deus, a Deus louvai, cantai um salmo a seu nome! O seu nome é Senhor: exultai diante dele!
- Dos órfãos Ele é pai, e das viúvas protetor: é assim o nosso Deus em sua santa habitação. É o Senhor quem dá abrigo, dá um lar aos deserdados, quem liberta os prisioneiros e os sacia com fartura.
- Derramastes lá do alto uma chuva generosa, e vossa terra, vossa herança, já cansada, renovastes; e ali vosso rebanho encontrou sua morada; com carinho preparastes essa terra para o pobre.

Carta aos Hebreus 12,18-19.22-24a
Em verdade, não vos aproximastes de uma montanha palpável, invadida por fogo violento, nuvem, trevas, tempestade, som da trombeta e aquela voz tão terrível que os que a ouviram suplicaram que ela não lhes falasse mais. Vós, ao contrário, vos aproximastes da montanha de Sião, da cidade do Deus vivo, da Jerusalém celestial, das miríades de anjos, da assembléia festiva dos primeiros inscritos no livro dos céus, e de Deus, juiz universal, e das almas dos justos que chegaram à perfeição, enfim, de Jesus, o mediador da Nova Aliança”.

Nós pedimos a Deus, fonte de todo o bem, no início da oração numero 4 “derramai em nossos corações o vosso amor”. Interessante que em Eclo 3, 19 lemos:
“Meu filho, faze o que fazes com doçura, e mais do que a estima dos homens, ganharás o afeto deles”.
Este texto é da versão da Bíblia Ave Maria. Mas na versão CNBB e na Jerusalém leremos que fazendo [nossos negócios/trabalhos] com doçura seremos AMADOS mais que um homem generoso. Aqui (na oração e no versículo) somos chamados a clamar aquilo que necessariamente importa: o amor. E percebemos que com simplicidade seremos amados por Deus que gera o seu amor na humildade, afinal “Jesus nasceu na humildade de um estábulo, em uma família pobre”[1]. Nasceu de uma Mãe humilde (Lc 1, 48).
Acho que esta tradução condiz melhor com o restante do texto que nos inclina para uma humildade independente de nossa situação ou posição (Eclo 3, 20).
Quando rogamos para que Ele estreite “os laços que nos unem convosco” e o fazemos em Jesus Cristo, na unidade do Espírito Santo, estamos, em outras palavras, realçando um dos aspectos da Igreja-Corpo de Cristo: a unidade de todos os membros entre si por sua união com Cristo. Mas como assim? O que tem a ver com as passagens?
Quando a Palavra do Senhor nos diz para sermos humildes quanto mais formos elevados/grandes (Eclo 3, 20-21) nos fala como exemplo do próprio Cristo. Vemos na carta aos Filipenses:
Sendo ele de condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens. E, sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-se ainda mais, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz” (Fl 2, 6-8).
Se Cristo, que é Deus, se fez o mais humilde dos homes, sendo exaltado soberanamente (Fl 2, 9), a sua Igreja-Corpo de Cristo também o deverá ser. Conseqüentemente também seus membros, que somos nós.
Mas para isso é preciso que escutemos a sabedoria. E se o caule do pecado se enraíza nos soberbos (Eclo 3, 28), ao contrário senso a Raiz da sabedoria é o temor a Ele (Eclo 1, 20). Esta sabedoria é o próprio Cristo saído do tronco de Jessé:
Um renovo sairá do tronco de Jessé, e um rebento brotará de suas raízes. Sobre ele repousará o Espírito do Senhor, Espírito de sabedoria” (Isaías 11, 1-2ª)
Esta certeza nos faz responder ao Senhor no salmo “COM CARINHO PREPARASTES UMA MESA PARA O POBRE”. Esse pobres são os que acolhem [a boa nova] com o coração humilde[2]. A nossa escuta e o nosso coração humilde nos fazem estreitar os laços que nos unem a Cristo Jesus.
Neste sentido vemos a comparação das duas montanhas da carta aos hebreus que se relacionam com os dois filhos de Abraão.  A primeira montanha palpável, com seu fogo e nuvens e trombetas, tem seu paralelo na filha da escrava e significa o monte Sinai, que gera para a escravidão (Gl 4, 22.24-25), onde só a lei servia e não havia intimidade com Deus, apenas distância e medo como escrito no Êxodo:
(...)o Senhor descerá à vista de todo o povo sobre o monte Sinai. Fixarás ao redor limites ao povo, e dir-lhe-ás: guardai-vos de subir o monte ou de tocar a sua base! Se alguém tocar o monte, será morto. Na manhã do terceiro dia, houve um estrondo de trovões e de relâmpagos; uma espessa nuvem cobria a montanha e o som da trombeta soou com força. Toda a multidão que estava no acampamento tremia. O som da trombeta soava ainda mais forte; Moisés falava e os trovões divinos respondiam-lhe”. (Ex 19, 11b-12.16.18)
Mas a segunda é a Jerusalém celeste representada pelo filho da promessa que é Isaac, e, assim como ele somos nós. Nós somos os filhos desta promessa:
Mas a Jerusalém lá do alto é livre e esta é a nossa mãe, porque está escrito: Alegra-te, ó estéril, que não davas à luz; (...)Como Isaac, irmãos, vós sois filhos da promessa”. (Gl 4, 26-27a.28)
Mas para isso é preciso ter o selo da promessa que nos diz o livro do Apocalipse:
Eu vi ainda: o Cordeiro estava de pé no monte Sião, e perto dele cento e quarenta e quatro mil pessoas que traziam escritos na fronte o nome dele e o nome de seu Pai”.
Quando dizemos que este estreitamento com Deus irá alimentar em nós o que é bom, assumimos que a sua palavra nos aproxima da perfeição. Palavra esta que não se resume aquilo que está escrito na Bíblia, mas a palavra atuante em nós pelos Sacramentos, inclusive o Sacramento Eucarístico que será dado na segunda parte da Missa.
Guardar com solicitude o que [Deus] nos destes é a nossa parte. E novamente, aqui entra o papel do Cristo-Igreja que nos Instrui. Se cristo nos chama a humildade, pela qual chegamos a promessa, alegremo-nos, pois ele preparou uma mesa para nós.


[1] Catecismo da Igreja Católica nº 525;
[2] Catecismo da Igreja Católica nº 544;

quinta-feira, 13 de maio de 2010

CELIBATO CLERICAL: POR QUE OS PADRES NÃO PODEM SE CASAR?

Antes de mais nada, é preciso dizer que o celibato de padres e freiras, bem como de todos aqueles que fazem voto de castidade perante Deus e a Igreja, não é um Dogma (matéria de fé), mas apenas uma norma disciplinar interna da Igreja. Como tal, a Igreja poderá alterar esta disposição ao longo do tempo.

De fato, por não se tratar de um Dogma, não há obrigação para que os católicos concordem incondicionalmente com tal regra. No entanto, devido a tantas confusões que o público faz quando se trata do assunto, é interessante saber por que a Igreja optou pelo celibato de seus religiosos.

De fato o celibato auxilia o sacerdote que, não tendo todas as obrigações de chefe de família, pode dedicar-se plenamente a sua missão de evangelizador. Vemos aqui um casamento com a Igreja.

É provável que nem todos os discípulos eram celibatários no momento de seus chamados. São Pedro já havia sido/era casado, mas a maioria era celibatária (até por serem Jovens quando chamados por Cristo). O próprio Jesus Cristo se manteve celibatário.

Com o tempo, os bispos e presbíteros da Igreja vão percebendo que esta condição mais próxima de Cristo era também a mais eficaz para o trabalho de evangelização. De fato, um pai de família não tem o mesmo tempo para cuidar da messe que um solteiro. Sem falar em outras questões, como a necessidade de se deslocar de uma região para outra.

Neste sentido, é que em 303 d.C. o Concílio de Elvira (Espanha) recomenda o celibato como norma para os religiosos. É fato que o Concílio apenas foi de encontro a uma realidade que já se fazia presente na Igreja.

Da mesma forma que várias instituições têm suas normas internas, a Igreja também as tem, com todo o dever e legitimidade para tanto. Ninguém é obrigado a ser padre, freira ou monge, mas caso decida por esta bela opção de vida, sabe das responsabilidades que está para assumir.

Haveria ideal maior do que procurar servir plenamente a Cristo?

MAS O QUE A BÍBLIA FALA SOBRE O CELIBATO DOS SACERDOTES?

De fato seria estranho conjugar a obrigação do celibato com a ordem dada pelo próprio Deus em Gn 1, 28, qual seja “Frutificai, disse ele, e multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a”. Afinal, o celibato vai contra a palavra de Deus?

De fato o celibato NUNCA foi contra a palavra de Deus, ao contrário homens como São Paulo, João Batista e o próprio Cristo seriam contra a palavra de Deus. A ordem de Gn 1, 28 não pode ser entendida como uma regra individual, mas um mandamento para a humanidade em geral (dado todo o contexto histórico deste escrito que se refere ao povo ainda escravo na Babilônia).

Logo o celibato não atesta ser o sexo algo condenável. Nem poderia vez que o sexo faz parte do Matrimônio, Sacramento da Igreja, exercendo a função de complementação entre o homem e a mulher, bem como a geração da vida. Funções, aliás, bem mais nobres do que outras que a sociedade moderna elegeu como justificativas das libertinagens a que hoje assistimos.

Então como justificar, usando apenas a Bíblia, que o celibato sacerdotal tem raiz nos Evangelhos?

Muito simples. Deve-se começar analisando, pela bíblia, o que é superior: o matrimônio ou o estado de virgindade consagrada?

Esta resposta Cristo já nos deu em Mt 19, 29, quando nos diz que “E todo aquele que por minha causa deixar irmãos, irmãs, pai, mãe, mulher, filhos, terras ou casa receberá o cêntuplo e possuirá a vida eterna.”.

É cristalino no texto que Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, aconselha alguns a deixarem tudo, incluindo a mulher, para servi-lo. Este texto comprova o valor e a validação do celibato clerical. Mas nós podemos, e devemos, ir além.

O mesmo Cristo Jesus nos disse:

"Nem todos são capazes de compreender o sentido desta palavra, mas somente aqueles a quem foi dado. Porque há eunucos que o são desde o ventre de suas mães, há eunucos tornados tais pelas mãos dos homens e há eunucos que a si mesmos se fizeram eunucos por amor do Reino dos céus. Quem puder compreender, compreenda" (Mt. 19, 11-12).

Cristo não pediu uma mutilação física, como também não incentivou ninguém a cegar-se para entrar no Reino de Deus (Mt 5, 29). Ao falar de eunucos Cristo dizia dos que, por amor ao Reino, renunciavam a vida marital. Tendo o próprio Cristo, Sacerdote por excelência, não se casado, faz bem os Sacerdotes o imitarem.

São Paulo também fala que o casamento era bom, mas afirma que permanecer como ele [em celibato] era melhor:

Aos solteiros e às viúvas, digo que lhes é bom se permanecerem assim, como eu. Mas, se não podem guardar a continência, casem-se. É melhor casar do que abrasar-se” (I Cor 7, 8-9).

Vamos pela lógica. São Paulo diz que é bom permanecer solteiro os que estão solteiros. Mas se estes não conseguem viver o celibato que se casem. São Paulo fala de uma condição de vida (celibatário) que não deveria mudar, tanto que sua conclusão é: “É melhor casar do que abrasar-se”. Ora, se o celibato não fosse uma condição perpétua, não precisariam abrasar-se os celibatários, bastaria passar desta condição [celibatário] para aquela [casado], sem nenhum problema, vez que o casamento é bom.

É a luz deste trecho da carta aos coríntios que entendemos outros escritos de São Paulo:

Não sou eu livre? Não sou apóstolo? Não vi Jesus nosso Senhor? Não sois vós minha obra no Senhor? Se para outros não sou apóstolo, ao menos para vós o sou, porque vós sois no Senhor o selo do meu apostolado. Esta é a minha defesa contra os que me denigrem. Não temos nós porventura o direito de comer e beber? Acaso não temos nós direito de deixar que nos acompanhe uma esposa cristã, a exemplo dos outros apóstolos e dos irmãos do Senhor e de Cefas?” (I Cor 9, 1-5)

O que São Paulo quer dizer com “levar uma esposa cristã”? Ora, São Paulo se refere a uma irmã como mulher[1], ou uma celibatária. Nunca poderia ser uma esposa sua [de São Paulo], pois seria dizer que era, a mulher, sua amante, vez que ele se declarara solteiro pouco antes. O próprio direito de comer e de beber que ele invoca, é às custas da comunidade com doações, vez que na seqüência, no versículo 6 ele diz “Ou só eu e Barnabé não temos direito de deixar o trabalho?”. Novamente a lógica nos faz refletir: como Eles [São Paulo e Barnabé] poderiam trabalhar na evangelização sem a assistência da comunidade como apoio? Morreriam de fome não é? Logo São Paulo clama o direito de ter auxílio da comunidade e de mulheres que façam os afazeres.

Interessante lembrar aqui a cura da sogra de São Pedro. Esta quando curada põe-se a servi-los (Mc 1, 29-31). Novamente o raciocínio lógico nos questiona: se São Pedro realmente era casado, porque sua sogra, e não sua mulher, põe-se a servi-los? De fato São Pedro, provavelmente, já não tinha mulher.

E OS BISPOS? PODEM CASAR-SE?

Contudo, ainda fica um questionamento: por que São Paulo diz que os bispos devem ser casados?

Na carta a Timóteo São Paulo diz:

Eis uma coisa certa: quem aspira ao episcopado, saiba que está desejando uma função sublime. Porque o bispo tem o dever de ser irrepreensível, esposo de uma única mulher, sóbrio, prudente, regrado no seu proceder, hospitaleiro, capaz de ensinar. Não deve ser dado a bebidas, nem violento, mas condescendente, pacífico, desinteressado; deve saber governar bem a sua casa, educar os seus filhos na obediência e na castidade. Pois quem não sabe governar a sua própria casa, como terá cuidado da Igreja de Deus? Não pode ser um recém-convertido, para não acontecer que, ofuscado pela vaidade, venha a cair na mesma condenação que o demônio. Importa, outrossim, que goze de boa consideração por parte dos de fora, para que não se exponha ao desprezo e caia assim nas ciladas diabólica.” (I Tm 3, 1-7).

Em carta a Tito, São Paulo diz:

“Eu te deixei em Creta para acabares de organizar tudo e estabeleceres anciãos em cada cidade, de acordo com as normas que te tracei. (Devem ser escolhidos entre) quem seja irrepreensível, marido de uma mulher, tenha filhos fiéis e não acusados de má conduta ou insubordinação. Porquanto é mister que o bispo seja irrepreensível, como administrador que é posto por Deus. Não arrogante, nem colérico, nem intemperante, nem violento, nem cobiçoso. Ao contrário, seja hospitaleiro, amigo do bem, prudente, justo, piedoso, continente,  firmemente apegado à doutrina da fé tal como foi ensinada, para poder exortar segundo a sã doutrina e rebater os que a contradizem” (Tt 1, 5-9).

E agora? O que quer dizer São Paulo?

A única coisa que ele quer dizer é que o bispo deve ter uma conduta irrepreensível, para que além de ensinar corretamente a doutrina de Cristo, possa servir de exemplo aos fiéis.

Devemos nos lembrar que no início do Cristianismo muitos pagãos se convertiam, e entre os mais velhos deles se escolhiam os Bispos.

São Paulo diz que os bispos devem se casar?

Reposta: Não. O que São Paulo diz e que, se casado, que seja apenas uma vez.

São Paulo diz que deve o Bispo ter uma família e uma casa?

Resposta: Também não. O que o Apóstolo diz então é que aqueles que forem casados, e que tiverem uma casa, sejam escolhidos levando em consideração a sabedoria com que governam suas casas, Pois quem não sabe governar a sua própria casa, como terá cuidado da Igreja de Deus?

Muito coerente a atitude de São Paulo, vez que normalmente os candidatos ao episcopado já eram casados antes mesmo de serem Cristãos. Não podemos esquecer que o casamento era, e ainda é, vocação natural para os Judeus na antiga aliança, para que, através do casamento e da geração da prole, tivessem parentesco com o Messias. Aqueles que não se casassem estariam explicitamente mostrando que não queriam ser parentes do Salvador prometido, o que seria um escândalo.

Não seria coerente que São Paulo advertisse que os candidatos ao episcopado tivessem se casado várias vezes (poderia acontecer. Lembre-se da discussão de Jesus a cerca da validade do divórcio em Mt 19, 3-9), e fossem péssimos administradores da sua casa.

Fontes:
Rocha, Luciano - A razão de nossa fé;
Site Veritatis Splendor - http://www.veritatis.com.br/;


[1] Tradução da Bíblia de Jerusalém;