segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Santa Maria Mãe de Deus


Ano A – 21 de novembro de 2011



Primeira leitura - Zc 2,14-17
Salmo - Lc 1,46-55
Evangelho - Mt 12,46-50

Evangelho segundo São Mateus 12, 46-50

 “Jesus falava ainda à multidão, quando veio sua mãe e seus irmãos e esperavam do lado de fora a ocasião de lhe falar. Disse-lhe alguém: Tua mãe e teus irmãos estão aí fora, e querem falar-te. Jesus respondeu-lhe: Quem é minha mãe e quem são meus irmãos? E, apontando com a mão para os seus discípulos, acrescentou: Eis aqui minha mãe e meus irmãos. Todo aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe.

Geralmente esta palavra é utilizada em um aspecto negativo, vez que, a primeira vista, Jesus estaria desmerecendo ou simplesmente desconsiderando a presença de sua mãe Maria e seus irmãos.

Contudo não há crítica quanto a família de Jesus. Pelo contrário, Jesus eleva o sentido de família ao fazer a comparação chave da passagem.

Saber que “Todo aquele que faz a vontade do meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe” é a chave para entender a mensagem deste parágrafo.
E quem é a mãe de Jesus? Aquela que faz a vontade do Pai.

Maria é a mulher que faz a vontade do Pai. Maria é a mulher do sim. Maria é a mulher do “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1, 38).
Neste sentido Maria é a nova Eva. Enquanto Eva disse não aos planos de Deus (Gn 2, 17; 3, 2-6), Maria disse sim.

Perceba que na primeira leitura está escrito no versículo 17: “Toda criatura esteja em silêncio diante do Senhor: ei-lo que surge [o Senhor] de sua santa morada”. A verdade teológica aqui escondida é que Maria Santíssima é a Santa morada de onde surge o Nosso Senhor Jesus Cristo.

Maria é o exemplo de quem faz a vontade de Deus vez que em Maria temos a representação das bem aventuranças. Maria é a primeira bem aventurada do novo testamento pois dela, antes do discurso das bem aventuranças (Mt 5) foi dito “Bem-aventurada és tu que creste, pois se hão de cumprir as coisas que da parte do Senhor te foram ditas!” (Lc 1, 45)

Afinal quem são os irmãos de Jesus? Todos aqueles que fazem a vontade do Pai.
E neste sentido nós, se fizermos a vontade do Pai, somos irmãos de Jesus, e consequentemente filhos de Maria.

Maria não teve outros filhos além de Jesus. Nesta própria passagem não é dito que chegaram Maria com seus filhos. Aliais, em NENHUMA passagem do evangelho é dito de alguém que seja filho de Maria fora Jesus (Mt 13, 55; Mc 6, 3). Maria chega com os primos, primas, Tios e Tias de Jesus.

Maria não foi lá falar, afinal ela era a mulher do silêncio (Lc2, 19), ela foi lá ouvir a palavra de Deus e colocá-la em prática ...  Todo aqueleque faz a vontade do meu Pai (...) esse é meu irmão, minha irmã e minha MÃE.

Quisera-nos receber um elogio como este. Maria deve ter ficado Muito feliz em saber que todo aquele que faz a vontade do Pai esse é como ela.


Possamos nós também sermos como Maria: fazedores da vontade do Pai.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

A PACIÊNCIA E A ESPERANÇA

Ano A – 25 de outubro de 2011

As leituras de hoje trabalham com a dupla ligação entre paciência e esperança a luz da vinda escatológica de Jesus Cristo.

Primeira Leitura Romanos 8, 18-25

18.          Tenho para mim que os sofrimentos da presente vida não têm proporção alguma com a glória futura que nos deve ser manifestada. 19.          Por isso, a criação aguarda ansiosamente a manifestação dos filhos de Deus. 20.              Pois a criação foi sujeita à vaidade (não voluntariamente, mas por vontade daquele que a sujeitou), 21.              todavia com a esperança de ser também ela libertada do cativeiro da corrupção, para participar da gloriosa liberdade dos filhos de Deus. 22.                Pois sabemos que toda a criação geme e sofre como que dores de parto até o presente dia. 23.            Não só ela, mas também nós, que temos as primícias do Espírito, gememos em nós mesmos, aguardando a adoção, a redenção do nosso corpo. 24.            Porque pela esperança é que fomos salvos. Ora, ver o objeto da esperança já não é esperança; porque o que alguém vê, como é que ainda o espera? 25.        Nós que esperamos o que não vemos, é em paciência que o aguardamos.       

Salmo Responsorial (Sal:126,1-2; Sal:126,2-3; Sal:126,4-5; Sal:126,6)
1.            Cântico das peregrinações. De Salomão. Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a constroem. Se o Senhor não guardar a cidade, debalde vigiam as sentinelas. 2.     Inútil levantar-vos antes da aurora, e atrasar até alta noite vosso descanso, para comer o pão de um duro trabalho, pois Deus o dá aos seus amados até durante o sono.              3.           Vede, os filhos são um dom de Deus: é uma recompensa o fruto das entranhas. 4.            Tais como as flechas nas mãos do guerreiro, assim são os filhos gerados na juventude. 5.                Feliz o homem que assim encheu sua aljava: não será confundido quando defender a sua causa contra seus inimigos à porta da cidade.

Evangelho Lucas 13,18-21
18.          Jesus dizia ainda: A que é semelhante o Reino de Deus, e a que o compararei?    19.         É semelhante ao grão de mostarda que um homem tomou e semeou na sua horta, e que cresceu até se fazer uma grande planta e as aves do céu vieram fazer ninhos nos seus ramos.                20.         Disse ainda: A que direi que é semelhante o Reino de Deus? 21.              É semelhante ao fermento que uma mulher tomou e misturou em três medidas de farinha e toda a massa ficou levedada.

A nossa chave de leitura pode ser Rm 8, 18 que nos diz “Tenho para mim que os sofrimentos da presente vida não têm proporção alguma com a glória futura que nos deve ser manifestada”.
Paulo nos está falando daquilo que já temos – a Paz com Deus de Rm 5, 1-2 – e que apesar de todos os sofrimentos que passamos (Rm 5, 3a), nada disso se comparará a tudo que nos espera. Esta recompensa pela espera não se dará de forma filosófica, atingindo apenas o espiritual, mas será um acontecimento concreto que acometerá até mesmo o cosmo.
A queda de Adão é também a queda de toda a criação de Deus. Por isso ela espera esta manifestação em nós, para que enfim passemos da escravidão da corrupção para a liberdade de filhos de Deus.
Ora, nós não somos originalmente escravos, estamos escravos pelo pecado de Adão, contudo, em que pese este pecado original, nós somos originalmente imaginem Dei – imagem de Deus.
Esperamos então a vinda escatológica do Messias já vivendo esta certeza, se não é em vão tudo aquilo que fazemos, escrevemos, falamos e pregamos (Sl 126, 1-2).
E no Evangelho vislumbramos esta manifestação no cosmos quando Jesus compara o reino a um grão de mostarda. Existe uma comparação com Ezequiel 17, 23 que nos diz “Eu o plantarei na alta montanha de Israel. Ele estenderá seus galhos e dará fruto; tornar-se-á um cedro magnífico, onde aninharão aves de toda espécie, instaladas à sombra de sua ramagem”.
Apesar de estarmos a porta do fim dos tempos, é em paciência que aguardamos este fim. O fermento – Espírito Santo – já está misturado na massa, mas é preciso esperar toda a massa fermentar.
Que possamos permitir esta transformação do Espírito em nós, para que apressemos a vinda do Senhor.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

COMO REZAR CORRETAMENTE?

O correto é rezar Pai Nosso que está “NO CÉU” ou “NOS CÉUS”? E a Ave-Maria é “CHEIA DE GRAÇA” ou “CHEIA DE GRAÇAS”?

1-      O PAI NOSSO
Pode-se dizer que, com toda a certeza, não há uma forma errada quanto estas duas fórmulas. Os termos “no céu” e “nos céus” são sinônimos.  Porém, a oração original que Mateus nos apresenta é “nos céus[1]”. Vemos essa fórmula também no catecismo nº 2759. Mesmo assim, do nº 2759 até o 2802 vemos a alternância dos dois termos.
Ambos têm o mesmo significado: a contemplação das realidades celestes.
Dizer que temos um Pai que está nos céus é lembrarmos (entre outras coisas) que somos estrangeiros nesta terra. Que “somos cidadãos dos céus” (Fl 3, 20) e por isso devemos buscar “as coisas lá do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus” (Cl 3, 1).

2-      A AVE-MARIA
A oração a Maria tem uma fórmula especifica: Ave Maria cheia “DE GRAÇA”, O Senhor é convosco(Lc 1, 28).
Não é correto dizer cheia de graças pela própria definição de graça. Graça é uma participação na vida divina. Esta participação é plena em Maria, de modo que outra realidade não há em seu coração. Nenhuma outra criatura se fez digna de ser chamada de cheia de graça a não ser Maria.
“Cheia de graça” não é uma saudação, o “Ave” sim é uma saudação. “Cheia de graça” é uma constatação do anjo. Antes mesmo de gerar o filho de Deus Maria já era repleta do favor divino.

3-      A PONTUAÇÃO BÍBLICA
A pontuação bíblica vem a ser a forma que encontramos para manusear a Bíblia com maior facilidade. Nós católicos utilizamos assim:

Vírgula - separa capítulo de versículo.
·         Exemplo: Dn 3, 5 (Livro de Daniel, capítulo 3, versículo 5);
Hífen - equivale ao “até”, inclusive em capítulos diferentes.
·         Exemplo1: Dn 3, 1-5 (Livro de Daniel, capítulo 3, versículos de 1 até o 5);
·         Exemplo2: Dn 3, 1-4, 3 (Livro de Daniel, capítulo 3, versículo um até o capítulo 4, versículo 3);
Ponto - mostra versículos alternados.
·         Exemplo: Dn 3, 1.3.5 (Livro de Daniel, capítulo 3, versículo 1, versículo 3, e o versículo 5);
Ponto e Vírgula - separa referencias diferentes.
·         Exemplo: Dn 3, 1; 4, 3 (Livro de Daniel, capítulo 3, versículo 1 mais o Capítulo 4, versículo 3);
·         Outro exemplo: Lc 1, 28; Zc 2, 14 (Evangelho segundo S. Lucas, capítulo 1, versículo 28 mais o Livro de Zacarias, capítulo 2, versículo 14);
 “s” - mostra a continuação de um versículo.
·         Exemplo: Dn 3,1s (Livro de Daniel, capítulo 3, versículo 1 e 2);
 “ss” - mostra a continuação de dois versículos.
·         Exemplo: Dn 3,1ss (Livro de Daniel, capítulo 3, versículo 1, 2 e 3).

E O QUE SÃO ABREVIAÇÕES BÍBLICAS?
As abreviações bíblicas têm como finalidade, facilitar na hora de especificar o livro sagrado. A maioria das Bíblias, para não dizer todas, possui uma página com todas as abreviações bíblicas, para a consulta de todos os leitores.


[1] Versão Jerusalém, CNBB e conforme o Pater Noster expositio – Comentário ao Pai Nosso – de S. Tomás de Aquino;

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

COMO EXPLICAR O ARREBATAMENTO DE ELIAS?

Atendendo a uma dúvida que na hora eu não pude responder...
“(...) eis que de repente um carro de fogo com cavalos de fogo os separou [Elias e Eliseu] um do outro, e Elias subiu ao céu num turbilhão
(II Reis 2, 11).

Uma das grandes perguntas que me fizeram foi “para onde tinha ido o corpo de Elias”. Confesso que não sabia. Apenas passei o que sempre ouvi: “Elias é um dos poucos que subiu com corpo ao céu, sem morrer”.
Mas aí ficam as dúvidas: como isso ocorre? O que ele respira? Onde exatamente ele está?
                         
Fui atrás e me surpreendi com as respostas que encontrei[1]. Neste texto falarei sobre Elias, mas a conclusão final serve para Henoque[2], o qual também se diz que não morreu.
O texto de II Reis 2, 1ss sugere que Elias tenha sido arrebatado vivo aos céus.
Eis o que se passou no dia em que o Senhor arrebatou Elias ao céu num turbilhão: Elias e Eliseu partiram de Gálgala, e Elias disse a Eliseu: Fica aqui, porque o Senhor me mandou a Betel. Por Deus e por tua vida, respondeu Eliseu, não te deixarei. E desceram a Betel. Os filhos dos profetas, que estavam em Betel, saíram ao encontro de Eliseu e disseram-lhe: Sabes que o Senhor vai tirar hoje o teu amo de sobre a tua cabeça? Sim, eu o sei: calai-vos! Elias disse-lhe: Fica aqui, Eliseu, porque o Senhor manda-me a Jericó. Por Deus e por tua vida, respondeu ele, não te deixarei. E chegaram a Jericó. Os filhos dos profetas que estavam em Jericó foram ter com Eliseu e disseram-lhe: Sabes que o Senhor vai tirar hoje o teu amo de sobre a tua cabeça? Sim, eu o sei. Calai-vos. Elias disse-lhe: Fica aqui, porque o Senhor manda-me ao Jordão. Por Deus e pela tua vida, respondeu Eliseu, não te deixarei. E partiram juntos. Seguiram-nos cinqüenta filhos de profetas os quais pararam ao longe, diante deles, enquanto Elias e Eliseu se detinham à beira do Jordão. Elias tomou o seu manto, dobrou-o e feriu com ele as águas, que se separaram para as duas bandas, de modo que atravessaram ambos a pé enxuto. Tendo passado, Elias disse a Eliseu: Pede-me algo antes que eu seja arrebatado de ti: que posso eu fazer por ti? Eliseu respondeu: Seja-me concedida uma porção dobrada do teu espírito. Pedes uma coisa difícil, replicou Elias. Entretanto, se me vires quando eu for arrebatado de ti, isso te será dado: mas se não me vires, não te será dado. Continuando o seu caminho, entretidos a conversar, eis que de repente um carro de fogo com cavalos de fogo os separou um do outro, e Elias subiu ao céu num turbilhão. Vendo isso, Eliseu exclamou: Meu pai, meu pai! Carro e cavalaria de Israel! E não o viu mais. Tomando então as suas vestes, rasgou-as em duas partes.  Apanhou o manto que Elias deixara cair, e voltando até o Jordão, parou à beira do rio” (II Rs 2, 1-13).

PRIMEIRO PONTO: OS PEDIDOS.
I - Devemos ter em conta que, antes do relato do arrebatamento, Elias pede para morrer:
“(...) e [Elias] andou pelo deserto um dia de caminho. Sentou-se debaixo de um junípero e desejou a morte: Basta, Senhor, disse ele; tirai-me a vida, porque não sou melhor do que meus pais” (I Rs 19, 4).
O verbo lqh = tomar, levar para si, arrebatar. Este fora o pedido de Elias. Não simplesmente pedir para morrer, mas sim pedir para ser levado por/para Deus. Daí a utilização do verbo hebraico “laqah” que designa uma intervenção divina.
Vemos o emprego deste verbo indicando uma libertação no salmo que diz “Do alto estendeu a sua mão e me pegou, e retirou-me das águas profundas” (Sl 17[18], 17). Também podemos vê-lo anunciando uma salvação final e misteriosa no Salmo 48[49], 16 e 72[73], 24[3].
Nesta ocasião Deus não lhe atende, tendo atendido depois.
Novamente atentamos a utilização do verbo “laqah”, que domina a narrativa de II Rs 3-13. Ele designa uma intervenção divina na morte do justo em trechos de vários salmos, mas, aponto de forma especial, o ocorrido com Henoque em Gn 5, 24, e Is 53, 8, em clara referência ao que aconteceria com o messias[4].
II – também é importante perceber o pedido de Eliseu para Elias:
“[Eliseu pede:] Seja-me concedida uma porção dobrada do teu espírito. Pedes uma coisa difícil, replicou Elias. Entretanto, se me vires quando eu for arrebatado de ti, isso te será dado: mas se não me vires, não te será dado (II Rs 2, 9-10).”
Estes termos – pedido e condição – geram um quadro de visão condicionada.
Temos então, juntando o pedido de Elias e o Pedido de Eliseu um indício da morte de Elias e como Eliseu teria visto esta morte do seu mestre, como em uma visão.
Este êxtase profético de Eliseu seria semelhante ao ocorrido com outros homens de Deus, como Miquéias quando viu os céus abertos (cf. I Rs 22, 19-22),... o discípulo de Eliseu, quando percebeu as  montanhas cobertas de cavalos e carros de fogo (cf. II Rs 6,17), .... Isaías, ao contemplar o trono de Deus (cf. Is 6,1-13), ou ainda Amos (cf. Am 9,1).
SEGUNDO PONTO: A TEOFANIA.
O carro de fogo, o vento e outros elementos são representações poéticas da teofania. O fogo é elemento da divindade, como Moisés o descobriu no Horeb, na sarça ardente e inacessível (Ex 3, 2-6; 24, 17; Jz 13, 20). De carros e cavalos nos falam entre outros o Sl 17[18], 11 e 103[104], 3. O vento forte também indica a presença de Deus(Is 30, 27; Ez 1, 4ss).
Teofania são as manifestações de Deus. para todos os povos. Estas manifestações, no Antigo Testamento, ocorrem em fatos da natureza (fogo, fumaça, etc.).
Podemos presumir então que este carro de fogo significa a força divina que atrai Elias.
Estes pontos juntos indicam, provavelmente uma “conversa”, um encontro místico entre Deus e Elias em um lugar separado ou elevado acima da terra.
Vemos este encontro semelhante aos que se deram na vida dos grandes profetas de Israel, seja no monte Sinai (com Moisés, cf. Ex 3; 19; com Elias, cf. II Sm 19),  seja no templo de  Jerusalém (com Isaías, em  Is 6), seja no santuário de  Betel (com Amos, em Am 9,1).
Terminado o êxtase de Elias (que Eliseu, especialmente agraciado por Deus, pode contemplar), aquele profeta teria voltado ao seu estado normal, vindo a morrer pouco depois disso.
TERCEIRO PONTO: A REAÇÃO DE ELISEU.
A morte de Elias parece insinuada, segundo exegetas modernos apontados por D. Estevão, também pelo fato de Eliseu ter rasgado suas vestes e recolhido o manto de Elias, ao verificar o desaparecimento definitivo do mestre (cf. 4 s 2,12s).
A expressão rasgar as vestes é sinal de luto ou tristeza (Gn 37, 29-30.34; Js 7, 6). Era um gesto muito comum nas culturas antigas, quer semíticas, quer greco-latinas. Em Jó, por exemplo, indica o luto pela morte dos filhos e, ao mesmo tempo, a submissão ao destino que se apresenta (Jó 1, 20-21)[5].
QUARTO PONTO: A RESPOSTA DE CRISTO.
Um fato inegável é que era ensinado que Elias havia de voltar antes da vinda do messias. Dentro deste contexto entra o questionamento dos discípulos: “Por que dizem os fariseus e os escribas que primeiro deve voltar Elias?” (Mc 9, 11). É preciso ter conta que os escribas ensinavam isto pois esta foi a conclusão dos profetas vide Mal 3,23s; Eclo 48; I Mac 2, 58.
Nisto a resposta de Jesus é esclarecedora: “Elias deve voltar primeiro e restabelecer tudo em ordem. (...) Mas digo-vos que também Elias já voltou (...)”. Referia-se Jesus a João Batista (Lc 1, 13.17).
É importante ter em conta um fato: no momento da escrita dos Evangelhos os apóstolos e, por conseguinte, a comunidade cristã já tinham consciência que João Batista era o Elias que havia de vir (Mt 11, 14). Mas na época que Jesus caminhou com eles isso era desconhecido, e até estranho. Na cabeça dos três, depois desta visão, o pensamento é claro: se Elias ainda não voltou, logo Jesus não é o Messias esperado. “Já voltou” diz Jesus, e cumpriu sua tarefa de preparar o povo, mas não o reconheceram.
Elias não voltaria por que, de fato, não havia “ido”. Entende-se, não fora arrebatado vivo para junto de Deus.
CONCLUSÃO.
Apesar de o Trecho de II Rs 2 não afirmar a morte de Elias, a construção um tanto misteriosa tornou-se apta a sugerir aos leitores tal conclusão (como, alias, se depreende de passagens bíblicas posteriormente redigidas, como Mal 3,23s; Eclo 48; I Mac 2, 58). Mas os dados apresentados mostram-se favoráveis a conclusão de que Elias teria morrido.
Os profetas não erraram ao dizer que Elias voltaria, apenas não tiveram o entendimento completo da situação. Jesus vem para dar o entendimento da profecia ao afirmar que Elias voltou, afinal João procedia conforme Elias.
Como diz Dom Estevão Bettencourt, o que aconteceu com Elias não se trata de tradição dogmática, mas sim de estudo exegético, a qual não impõe à fé dos cristãos.
Espero ter dado luz, ou uma nova forma de pensar sobre o ocorrido com Elias.
Abraço.


[1] Minha fonte de pesquisa foram os comentários das Bíblias PEREGRINO, JERUSALÉM e escritos de Dom Estêvão Bettencourt;
[2] Henoc;
[3] Nota da Bíblia Peregrino, p. 664;
[4] Spadafora, Pe. Enciclopédia Cattolica. p. 233;
[5] Mazzarolo, Isidoro. Jó, amor e ódio vem do mesmo Deus?. 2ª edição, p. 54;

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

COMO O DEUS DE JESUS PODE TER ROGADO AS PRAGAS E TER PEDIDO PARA UM HOMEM MATAR SEU FILHO?


Esta foi a segunda dúvida no curso de catequese.

A resposta passa, e muito, na definição do termo “a Bíblia é Palavra de Deus Inspirada por Deus”.
Muitos tem um pensamento da Bíblia como palavra de Deus em um sentido literal: A Bíblia teria sido “literalmente” escrita por Deus, palavra por palavra. Podemos quase imaginar o céu se abrindo e a bíblia caindo com zíper e tudo.
Não há nada mais errado.  E esse erro vai, forçosamente, levar a outros, tais como:
- Crer que os autores não são autores, mas espécies de redatores que só escreveram o que Deus “ditou”;
- Crer que Deus escolhe cada termo, cada palavra nos textos, cada pontuação, etc;
- Crer que Deus escolheu a língua na qual o texto foi originalmente escrito;
- Crer que Deus escolhe também as palavras utilizadas em cada tradução (do hebraico para o grego, do grego para o latim, do latim para outras línguas);
-  ...
Para chegar a uma conclusão vamos ver o que diz a Santa Igreja sobre isso:
As coisas reveladas por Deus, contidas e manifestadas na Sagrada Escritura, foram escritas por inspiração do Espírito Santo. (...) têm Deus por autor (...). Todavia, para escrever os livros sagrados, Deus escolheu e serviu-se de homens na posse das suas faculdades e capacidades, para que, agindo Ele neles e por eles, pusessem por escrito, como verdadeiros autores, tudo aquilo e só aquilo que Ele queria[1].
Como, porém, Deus na Sagrada Escritura falou por meio dos homens e à maneira humana, o intérprete da Sagrada Escritura, para saber o que Ele quis comunicar-nos, deve investigar com atenção o que os hagiógrafos realmente quiseram significar e que aprouve a Deus manifestar por meio das suas palavras[2].
Nada mais claro que isso. Deus é o autor? Sim, mas é Autor no tocante a Inspiração Divina em relação aos seus escritores (inspiração dada pelo Espírito Santo). Foram homens que escreveram as Sagradas Escrituras e esses homens utilizam as suas limitações e os seus conhecimentos. Eles escrevem conforme seu limitado conhecimento de Deus. Esse conhecimento vai aumentando conforme avança a história da salvação.
Por isso são esse homens também autores no referente ao estilo literário, os termos, as palavras, etc.
Por isso quem interpreta a Sagrada Escritura deve atentar não só para a letra escrita. Para saber o que quis Deus comunicar deve atentar aos “gêneros literários”. Por não ser claro o sentido das escrituras, cabe a Igreja esta interpretação.
Dado isto, vamos as dúvidas propriamente ditas...
Sobre o sacrifício de Isaac, temos:

O Senhor disse a Abrão: “Deixa tua terra, tua família e a casa de teu pai e vai para a terra que eu te mostrar”. (Gn 12, 1)
O Senhor apareceu a Abrão e disse-lhe: “Darei esta terra à tua posteridade.” Abrão edificou um altar ao Senhor, que lhe tinha aparecido”. (Gn 12, 7)
Depois disso, Deus provou Abraão, e disse-lhe: “Abraão!” “Eis-me aqui”, respondeu ele”. (Gn 22, 1)
O anjo do Senhor, porém, gritou-lhe do céu: “Abraão! Abraão!” “Eis-me aqui!”””. (Gn 22, 11)

Em uma primeira leitura vemos Deus testando a fé de Abraão com duas ações diferentes:
1.      Dando a Abraão um filho com sua mulher estéril;
2.      Pedindo que Abraão sacrifique este filho, em nome Dele;
Ocorre que a leitura correta, com a possibilidade que temos (dada a bíblia que usamos, no caso a versão AVE-MARIA) é esta:
Gn 12, 1 – aqui o Senhor Iahweh[3] manda Abraão sair da terra onde vive;
Gn 12, 7 – aqui o Senhor Iahweh[4] promete uma posteridade a Abraão;
OBS: Notem que Senhor (versão AVE-MARIA) equivale a Iahweh (versão Jerusalém).
Gn 22, 1 – aqui Deus pede uma prova a Abraão;
Gn, 22, 11 – aqui o anjo do Senhor Iahweh impede o sacrifício;
OBS: notem que Deus não equivale a Iahweh (Essa referencia [Deus ≠ Iahweh] é específica aos versículos apontados, e não ocorre na Bíblia toda).
Fazendo então uma releitura, percebe-se que não é Iahweh quem pede o sacrifício.
Mas quem pede então?
Ocorre que, quando Abraão é chamado pelo Senhor (Gn 11, 1) ele é um pagão que não conhece Iahweh. Abraão não conhece esse Deus que é amor, mas conhecia as divindades cultuadas no meio do povo pagão em que vivia.
Era uma prática comum Sacrificar a Deus todas as primícias: animais, plantações e filhos também.
Aqui existem duas possibilidades:
1.      Esse Deus ser uma divindade como Moloc[5], conforme Levítico 18, 21:
“Não darás nenhum de teus filhos para ser sacrificado a Moloc; e não profanarás o nome de teu Deus. Eu sou o Senhor”.
2.      Esse Deus ser Iahweh. Aí temos que lembrar que o povo não tinha conhecimento das vontades de Deus. De fato os filhos são uma benção, de Deus, e sua não chegada indica que algo está errado (esterilidade). Quando a mulher engravida isto quer dizer que Deus abençoou o casal. Por isso, na mente deles todas os primogênitos, como todas as primícias, tem que ser dados [sacrificados] a Deus (como agradecimento pela fertilidade do casal). De fato os filhos são de Deus, mas não devem, por isso ser sacrificados, mas sim resgatadas:
Quando o Senhor te houver introduzido na terra dos cananeus, como ele jurou a ti e a teus pais, e te houver dado essa terra, consagrarás ao Senhor todo primogênito; mesmo os primogênitos de teus animais, os machos, serão do Senhor. Entretanto, resgatarás com um cordeiro todo primogênito do jumento; do contrário, quebrar-lhe-ás a nuca. Todo primogênito dos homens entre teus filhos, resgatá-lo-ás igualmente”.
(Exodo 13, 11-13)
Aqui vemos que os primogênitos dos animais são consagrados a Deus (seja por sacrifícios[6], seja entregando-os aos sacerdotes[7]), mas os jumentos não (pois são animais impuros[8]), nem os filhos (por que Deus salva os seus filhos,como fez com Isaac, filho de Abraão).
Na prática Abraão se vê em uma situação inusitadamente difícil. Tem que, de acordo com a prática do povo, sacrificar um filho que ama e uma promessa cumprida por Deus.
Só que Deus não quer o sacrifício dos filhos e Abraão percebe isso, seja de forma implícita, seja de forma explicita.
Como disse a Dei verbum, é preciso entender a mensagem escrita nas escrituras.
Quanto às pragas egípcias...
A seqüência de pragas é:
1.      A água transformada em sangue (Ex 7, 14-25);
2.      As rãs (Ex 8, 1-15[7, 26ss; 8, 1-11]);
3.      Os mosquitos (Ex 8, 16-19[12-15]);
4.      As moscas (Ex 8, 20-32[16-28]);
5.      A peste dos animais (Ex 9, 1-7);
6.      As úlceras (Ex 9, 8-12);
7.      A chuva de pedras (Ex 9, 13-35);
8.      Os gafanhotos (Ex 10, 1-20);
9.      As trevas (Ex 10, 21-29);
10.  A morte dos primogênitos (Ex 11, 1-8; 12, 29-34);
Novamente, temos que entender o que se passa por trás da escrita.
Temos um texto que tem a intenção de mostrar a grandiosidade de Iahweh não só para os israelitas como também frente aos deuses egípcios.
Em síntese, vez que explanar sobre cada uma das pragas necessitaria um trabalho muito longo, vou dividir as “pragas” conforme suas intenções[9].
Inicialmente não temos 10 pragas, mas sim 9 sinais ou prodígios e uma praga. Os prodígios/sinais (Ex 4, 1-9.30; 7, 9) tem a intenção de dar crédito a Moisés junto ao povo e ao Faraó. As “pragas” são destinadas a fazerem o Faraó reconhecer o poder de Iahweh.
Dividindo em blocos temos:
1.      No I e II sinais os magos repetem os prodígios com suas feitiçarias (Ex 7, 20.22; 8, 5-7[2-3]), o que invalida o valor da prova;
2.      No III sinal os magos são incapazes (Ex 8, 17-18[13-14]), e o prodígio de Moisés mostra-se revelador;
3.      No IV e V sinais os magos nada fazem;
4.      No VI sinal os magos são atingidos (Ex 9, 10-11) e retiram-se do resto da narrativa. A partir daqui só teremos como personagens: Moisés, Aarão e o Faraó;
5.      No VII sinal temos a chuva de pedras ou granizo. Uma tempestade de chuva e granizo, com raios e trovões não é fenômeno meteorológico natural no Egito. Esta tempestade é uma teofania (sinal de Deus). A tempestade diz, sem dúvidas, que Iahweh domina no território egípcio;
6.      A partir daqui, no VIII sinal, o Faraó vai cedendo aos poucos. O décimo acontecimento é definitivo: Uma Praga, que é um golpe. Não se trata de um acontecimento natural;
Deve-se, de fato, reter apenas a intenção da narrativa que é fazer brilhar aos olhos dos israelitas e do Faraó a onipotência de Iahweh. O texto, que aos nossos olhos pode mostra um Deus cruel que fere o Egito e ainda, por vezes, endurece o coração do Faraó (Ex 4, 21), para que este não deixe o povo sair (observem a contradição), aos olhos dos israelitas mostra um Deus que além de controlar a natureza em favor do seu povo, ainda é mais poderoso do que os deuses ou o Faraó que os aprisiona.
O livro do Êxodo é uma grande saga explicada no próprio nome que tem no termo grego “eis+hodós” o significado de aprendizagem no caminho[10]. Tendo os fenômenos ou as "pragas" da saída do Egito ocorrido conforme descrito ou de forma diferente, o autor deseja chamar a atenção para a conversão do povo. O sentido do povo esta no Deus que inicialmente eles não conhecem (Ex 4, 29-31) mas que ao conhecerem e lhe prestarem culto (a Páscoa judaica de Ex 12, 1-14) conseguem finalmente sair do Egito. Esta é a teologia por trás do Êxodo.
Deus não mudou. O entendimento dele sim, assim como nós o conhecemos aos poucos, também os hebreus foram descobrindo como Ele era por etapas graduais.
Deus sempre foi e é amor.


[1] Dei Verbum nº 11;
[2] Dei Verbum nº 12;
[3] Termo específico na Bíblia de Jerusalém;
[4] Termo específico na Bíblia de Jerusalém;
[5] Ou outra divindade;
[6] Deuteronômio 15, 19-20;
[7] Números 18, 15-18;
[8] Êxodo 34, 20 c/c Números 18, 15;
[9] Seguirei, resumidamente, as fórmulas apresentadas nas notas das Bíblias PEREGRINO e JERUSALÉM;
[10] Mazzarolo, Isidoro. A Bíblia em suas mãos. 7ª edição, p. 26;